sexta-feira, 16 de outubro de 2026

 

Sempre é tarde demais

(Vera Stringuini)

 

Não é novidade o fato de a psicologia buscar inspiração na literatura. Freud quase não sabia falar sem invocar a arte como prova de verdade. Da tragédia grega à arte contemporânea, Freud toma como aliados todos os grandes gênios, de quem se considera sucessor. Buscando a linguagem dos sintomas e dos sonhos para comunicar o processo mental que ele chamou de inconsciente, Freud admite que as formas operativas de linguagem são insuficientes para suportar as ambigüidades e sutilezas necessárias para que a alma se revele. Essa outra coisa que se diz, no delírio, no sintoma, no sonho, no desejo, é o fictício. O artista fabrica o arte-fato capaz de dar som ao indizível, imagem ao impensável. É possível que toda a psicologia seja apenas uma forma de literatura, que se distingue das demais pela pretensão de ser terapêutica em suas finalidades. Na verdade, a dor individual só tem solução quando encontra um caminho de socialização, quando encontra o perdão pela palavra e pela escuta. A linguagem que cose por dentro, como dizia Clarice Lispector, permite o encontro entre o ser e sua experiência. Costurando os sentimentos através da ficção, a realidade interna e externa se vinculam de modo compreensível e tolerável: Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei de criar sobre a vida. Sem mentir.[1] É mais do que coincidência o fato de que tudo o que se diga no discurso psicoterápico esteja sujeito às mesmas incertezas do discurso ficcional.

 

Era o vento que soprava com fúria

 

Charles Kiefer, em O poncho, vem nos falar de uma pungente história de amor e abandono. A narradora, neta do protagonista Fernando Könning, de quem recebeu a história, não consegue objetar o ponto de vista masculino, tão difícil de conciliar com o feminino. As questões que a novela propõe são eternas: Por que os homens fogem do amor? Por que as mulheres não sobrevivem à falta de amor? Partindo desses dois extremos, vamos ter de tecer um fio, como Ariadne, para entrar e sair do labirinto da sexualidade sem nos perdermos. O fio de Ariadne é o mesmo que é cardado, trançado, fiado, bordado, tecido por todas as mulheres, em todas as histórias, em todas as memórias, desde sempre. Símbolo do inexorável feminino na vida do homem, o fio vai tecer o pano que será seu abrigo, prisão e encantamento do berço ao túmulo. Nossa primeira visão de Fernando é a de um homem castigado pelos guascaços de uma chuva lateral e violenta.² Não há amabilidade nesse universo. A distância que separa o homem de seu abrigo há de ser sempre representada como a violenta exposição à dor. Era o vento que soprava com fúria, que arcava os galhos das árvores, que zumbia nos ouvidos (...) no estradão escuro e encharcado. De todas as formas a natureza está nos dizendo que não foi feita para o conforto e alegria dos humanos. Mas, entre o homem e a intempérie, para protegê-lo e encorajá-lo, se interpõe a frágil tessitura materializada no poncho que o aquece, do amor de uma mulher. A certeza de encontrá-la ilumina o caminho de Fernando como a Estrela de Belém. A chuva que cai incessante é a mesma água que brota dos olhos e nos tolda a visão, porque sabemos, por própria experiência, que todos os regressos são inúteis, todos os arrependimentos são inócuos, sempre é tarde demais. O tempo da ausência congela-se na memória, enquanto o tempo dos astros progride inexorável no real. Seu poder de transformação faz com que tudo o que possamos imaginar incólume, não exista mais. Depois de cinco anos de ausência, só os espectros mantêm-se idênticos a si mesmos.

 

São os ventos e as águas de abril que trazem Fernando de volta.

 

April is the cruelest month breeding

 Lilacs out of the dead mixing

Memory and desire stirring

Dull roots with spring rain

 

(Abril é o mais cruel dos meses,

germinando

Lilases na terra morta mesclando

Memória e desejo revolvendo

Raízes inertes com chuva primaveril.)3

 

Quando o cheiro de terra molhada se espalhava no ar e a cicatriz da alma pulsava, já em outro tempo, Fernando contava a sua história para a criança que mais tarde, talvez em outra tarde chuvosa, deixará brotar as palavras de suas próprias cicatrizes. Memórias e desejos são a matéria-prima dessa transformação, da vida vivida em literatura. Histórias contadas são precursoras de histórias escritas, experiência que se transfigura em arte para não apodrecer, destino final de tudo o que é vivo. Pela escuta passiva, a narradora descobre que não será fácil ser mulher. A pergunta que a ouvinte se faz, e que não pode ser verbalizada, porque não tem resposta, configura o ponto de atrito por onde, paradoxalmente, os papéis sexuais se enlaçam e se complementam: Por que os homens colocam tudo acima do amor? A atração pela vastidão do mundo, que separa Fernando de Angélica, é a marca do homem, seu destino. A função sexual terá de abrir caminho, cristalizar-se na trajetória maior que é a de avançar no espaço, povoar novos campos, estar sempre separando-se, sempre libertando-se dos pegajosos cheiros da infância. A mulher é a autora dos pegajosos cheiros, são seus leites e secreções, seus cheiros de fêmea e de mãe. Fernando precisa fabricar a distância física enquanto não puder produzir a distância psíquica que vai garantir sua condição de homem entre outros homens. Partir para a revolução, cumprir meu destino ao lado de outros dezessete homens que também partiriam, comandados por José Tarquino Rosas. Não é machismo, mas masculinidade, genuína necessidade de fortalecer-se para não ser imobilizada no papel de criança. Difícil, para uma mulher, compreender.

 

Aquilo que não é possível compreender é preciso amar. Até o último alento, Angélica espera num solipsismo mortal de virgem consagrada, porque pressente que Fernando voltará. O poncho o reconduzirá ao abrigo de que carecem todos os homens. Como oferenda, ele carrega dentro de si as forças do bem. Por ter sobrevivido a prisões, emboscadas e vendetas da revolução, ele sente necessidade de compartilhar sua força. Em breve ele saberá que é a mulher abandonada quem corre os maiores riscos.

 

A sensação de segurança que o poncho oferece ao homem é a mesma do amor. Ineficaz, ilusória, mas a única que pode ajudá-lo a sobreviver.

 

O amor não nos salva. No caminho que trilhamos do berço à tumba, somos apenas poeira. Mas, para quem nos amar somos abençoados, barro moldado pela mão de Deus e endereçados para a eternidade. Para os demais, para aquilo que se convencionou chamar de mundo real, para o tempo, para a chuva que cai indiferente sobre vivos e mortos, para o Universo que nos contempla sem piedade, somos pouco e simplesmente alimento.

 

Um ponto de apoio contra o absurdo e a loucura

 

Em torno do sexto mês de vida descobrimos que não é o nosso desejo que fabrica a mãe. Mas, ao contrário, é o desejo dela que nos sustenta. Também descobrimos que para sobreviver temos de devorá-la. Como ainda não somos capazes de perceber o infinito poder de regeneração do seio que amamos, posto que o dispensamos uma vez saciados, e só vamos nos lembrar dele na próxima fome, a idéia de seu desaparecimento é sinônimo de privação mortal.

 

Ser afastado do objeto de amor é uma das mais angustiantes experiências do ser humano. Frente a essa ameaça, o animal humano inventa a divindade, pinta nas paredes da caverna em que habita o animal de culto, fonte da vida. Sabemos que estamos diante do permanente quando re-conhecemos: o rosto da mãe que alimenta, o rosto do amado que volta, as mesmas hordas de renas e bisontes que vencem o inverno glacial e retornam para mais uma vez servir de alimento ao nosso corpo e alma.

 

A necessidade de amar e a necessidade de ser amado é uma progressão da incapacidade de a substância viva depender só de si mesma. Ferenczi, em Thalassa, faz uma curiosa especulação sobre a origem da sexualidade como derivada da primitiva busca de todo o ser vivo por proteína e umidade. Quando a substância viva perde sua condição de reproduzir-se por cissiparidade, à luta pelo alimento segue-se a disputa por espaços sexuais para a satisfação do instinto de retorno à mãe e ao oceano ancestral de todas as mães.4

 

Sucessivas catástrofes obrigarão a substância viva a desenvolver sua capacidade de conservar o objeto que sacia a fome, sexual ou não. Será preciso aprender a devorar sem matar, já que a fome não pode ser definitivamente extinta. Também será necessário deixar-se devorar e continuar vivendo já que um indivíduo não pode dissolver-se em outro. No universo humano, onde os instintos estão submetidos ao pensamento, esses dilemas nunca estarão definitivamente apaziguados. O pacto amoroso estará submetido, como as estações, a permanentes mudanças climáticas que exigirão infinita capacidade de adaptação. Tudo vem em ciclos, correntes alternadas, pulsão e repulsão, onda e repuxo.

 

A criança sofre o terror de pensar que devorou a mãe, o homem reza e chora diante de seu deus para que não o abandone, a mulher perscruta o caminho que engoliu seu homem, um macho nunca saberá se sua fêmea foi invadida por outro macho.

 

Siddharta, o Buda, conta que, em uma de suas encarnações anteriores teria sido um coelho que se deixou sacrificar para servir de alimento a um santo homem, sendo por isso também santificado. Quer dizer, temos de aceitar a lei.

 

Para o predador voraz, que deseja estar sempre no papel de devorador, o esforço é descomunal. Mesmo o mais poderoso dos homens, Héracles, Conde Drácula, Don Juan, ou Bill Clinton, em algum momento de suas vidas precisará repousar. Um homem cansado, um homem faminto, um homem ansioso pode tomar as coisas pelo que não são, a aparência pela realidade, especialmente num entardecer chuvoso, não pode? Assim retornam todos os guerreiros, desde Ulisses.

 

Segundo Freud, o amor por si mesmo, que defende o homem de amar infinitamente o outro, também é limitado pelo fato de que um ego repleto de si mesmo começa a adoecer. Narciso morre intoxicado de si mesmo. A ninfa Eco não é alimento capaz de aliviar sua fome, não é testemunha suficientemente qualificada para lhe garantir significado. A identidade está sempre pendente do olhar do outro por mais auto-eróticos que sejamos.

 

Um intenso egoísmo pode nos proteger contra a doença mental; mas em algum momento temos de começar a amar para não adoecermos E efetivamente adoecemos quando alguma frustração nos impede de amar.5

 

Em Charles Kiefer, é preciso buscar na inocência da menina sentada aos seus pés um ponto de apoio contra o absurdo e a loucura, contra a fenda que se produzira na lógica do Universo. Na guerra masculina tanto a derrota quanto a vitória pede o olhar complacente de uma mulher. Que o digam os competidores de todas as lutas que, como Dom Quixote, só podem justificar-se pelo amor de Dulcinéia. Do mesmo modo Fernando, o revolucionário, em um momento de vazio interior, precisa sentir-se resposta a alguma necessidade humana, precisa saber-se preenchimento de um vazio semelhante ao seu. Ceder lugar à inocência do amor é dar um voto de confiança ao futuro, ultrapassando o campo de batalha do ego para ocupar o campo da partilha, onde se dá e se recebe, se planta e se colhe.

 

Solidão irredimível...

 

Para Fernando, contar sua história é mostrar para a nova geração o universo do possível: Lídia lhe deu os filhos, Angélica lhe deu os sonhos; ambas vivem dentro dele e o fazem viver. Cada uma lhe oferece um alimento com diferentes qualidades.

 

Angélica não é deste mundo. Como a Virgem Maria, é mulher feita para a contemplação. Tem mais prestígio literário do que Lídia, do mesmo modo que Maria de Magdala, espargindo perfume e paixão sobre Jesus de Nazaré, é mais forte que Martha, na cozinha, sovando o pão. Tanto Magdalena quanto Angélica personificam aquela que tudo dá em troca de nada. É a mesma virtude de Galatea esculpida em mármore segundo o desejo de seu criador.

 

Lídia é o aqui e agora das estações. É chuva, frio, calor, medo, doença, filhos, envelhecimento, morte. É o que amamos e o que não amamos. Planta que dá flor, fruto, espinhos e apodrece. Ela é dessas mulheres firmemente plantadas no cotidiano, ternas e compassivas, as enfermeiras da alma, que recebem em paga o abandono e o desprezo. Esse desprezo não é por essa mulher, exatamente, mas por aquilo que ela encarna. Ela responde às necessidades mais prosaicas do corpo e da vida. Então, mesmo intranscendente, é para ela que convergem os rios da existência. Quando as feridas dos homens começam a doer, eles vão procurá-las: Lídia, Penélope, Martha...

 

Por outro lado, Angélica, como o nome sugere, é puro e incontaminado Eros platônico que a memória conservou para fazer companhia ao homem em sua incômoda e solitária guerra.

 

Não se sabe se é morta e parada em beleza,

Ou viva e acostumada às condições da morte.6

 

Sendo imaterial, Angélica é amada quase em desespero, como se pode amar um espectro, pois só o espectro está protegido da contaminação que sofre todo o orgânico e perecível. O espectro tem o valor cristalizado de uma representação. É uma obra de arte. Bastante para ser acicate do desejo, não para satisfazê-lo. Não alimenta, não aquece, são as mãos frias de Angélica na sua aparição fantasmagórica.

 

Também a criança é capaz de realizar a satisfação alucinatória do desejo e, eventualmente, dormir com a falsa sensação de saciedade. Mas é fugaz esse repouso. A fome volta e o grito de aflição denuncia a insuficiência da fantasia frente à realidade da carência. Desse modo, a mãe concreta vai ganhando primazia frente à mãe idealizada. Se Angélica fosse capaz de pular para a vida real, tornar-se-ia também uma desprezível imperfeição.

 

A vingança de Angélica é tornar-se, pela morte, inelaborável. Povoará o ego de Fernando como uma sugadora permanente de energia psíquica. Irá submetê-lo à solidão irredimível e à doença mais perniciosa e letal, a de viver com os olhos voltados para o passado. Mas como matar um espectro sem aniquilar também uma parte do ego? Como destruir um fantasma sem incendiar o castelo? O que morre transforma-se em outra coisa, renasce em abril. O fantasma ocupa um lugar que é esvaziado pela sua presença-ausência como um lugar à mesa reservado ao morto. Nada pode brotar no campo da ausência de Angélica. Com o próprio silêncio, ela faz calar o outro lado, deixa-o vazio de sentido, enlouquece o interlocutor.

 

Não vivia aquele instante, mas outro, afastado no tempo

 

O primeiro impulso amoroso é de origem narcisista, quer dizer, estamos sempre procurando por nós mesmos. Para usar a classificação de Freud, amamos no outro, em primeiro lugar:

 

1 - O que somos.

2- O que fomos.

3 – O que gostaríamos de ser.

4- O que representa uma parte de nós.7

 

Como as cores e os cheiros artificiais que a natureza fabrica para seduzir sexualmente os seres, a ilusão narcísica é um passo necessário para enfraquecer nossas resistências e reduzir nossa ferocidade predadora. Frente a algo tão idealmente confundido conosco, teremos o cuidado de preservá-lo. Posto que, a nossos próprios olhos, somos insubstituíveis, nosso parceiro identificado narcisicamente também o é. São esses os movimentos iniciais da paixão, verdadeiro cio humano onde todos os outros objetivos ficam subordinados à realização do desejo. Não é ainda o sentimento amoroso no sentido da aquisição de uma genuína aceitação da alteridade. Inexoravelmente, a ilusão narcísica terá de ser desfeita, para que o amor possa se integrar ao conjunto da existência. Tem de haver o momento da iluminação, quando Eros e Psique se dão a conhecer. A tomada de consciência frente à diferenciação traz a desilusão frente ao objeto, que pode ser assim resumida: ela não tem um pênis para protegê-lo, ele não tem um seio para nutri-la. Aceitar no outro, não nossa completude, mas nossa castração, é o desafio que temos de enfrentar se quisermos aprender a amar.

 

Na continuação do esquema freudiano alcançamos a genitalidade, quando reconhecemos a função complementar dos dois sexos. Psiquicamente significa personalizar os dois elementos fundadores da espécie. O homem protetor e a mulher nutriz. Fórmula vitoriosa desde os primórdios, porque permite a sobrevivência da espécie, frente à longa infância do animal humano.8 Quanto maior o sentimento de fragilidade, mais angustiante é a procura por objetos que supram nossa falta elementar. Na tradição colecionadora de Don Juan, Casanova ou Barba Azul, repete-se sempre a mesma cena: ele abandona uma mulher para procurar em outra exatamente a mesma coisa que foi deixada para trás. A ilusão é recomposta para desfazer-se numa eterna e infrutífera busca, até a vitória dos espectros que sufocam e matam o sujeito. A cada nova tentativa, o abandonador perde uma parte dele, deixa no passado uma de suas costelas.

 

Com a sensação de que não vivia aquele instante, mas outro, afastado no tempo, Fernando aproximou-se da mulher que amava, a mulher na irrealidade de um desejo antigo, cheirando a mofo, tímida, extremamente, tímida, e silenciosa como um riacho no pampa. Pelo silêncio, a mulher do sonho mantém o diálogo do amante consigo mesmo enquanto, pela simples presença, cria a ilusão de alteridade. É uma transição entre a ninfa Eco, que deixa Narciso vazio, e Lídia, que não habita castelos de areia. Como no baile em que o príncipe encontra Cinderela, a irrealidade é a premissa da paixão. Para garantir que o amor não foi só imaginação, restam as memórias materializadas no sapato de cristal, no poncho: O amor precisa agarrar-se às coisas, aos objetos, à luz oblíqua da lua, às rosas murchas, às páginas amarelecidas das cartas e dos diários, ao nitrato de prata das fotografias para sobreviver à voracidade do tempo e do esquecimento. São as garantias da realidade do outro, alguma confiança no nosso próprio julgamento, alguma esperança de que não estamos enlouquecendo.

 

O vestido com cheiro de mofo, as rosas que murcham, a voracidade do tempo, mostram que o amor também derrete. Fatalmente seremos traídos, não há um outro que seja o nosso duplo. Nesse momento, o colecionador parte em busca de outra peça, o soldado volta a ouvir o chamado da corneta, o ressentido se resigna a mais um desengano, e assim por diante.

 

Um pungente apelo à ternura é nossa defesa contra o esvaziamento de valor que sofremos, ou produzimos, quando o príncipe se transforma em sapo, quando a Cinderela volta para o borralho, quando as cores e os cheiros da primavera desaparecem. É a gestação que se inicia e o processo amoroso começa a se desenvolver no obscuro da alma, sem o espetáculo dos primeiros embates. As múltiplas possibilidades de identificação e reconhecimento começam a circular, ocupando diferentes posições até produzir algo como a roda de cores de Newton, cujo resultado é o branco, síntese de todas as cores. Se o outro não conseguir descobrir em si ternura suficiente para acolher nossa fragilidade, nos abandonará como a algo sem valor.

 

No desdobramento da paixão segue-se, ou a construção de um caminho comum que se abra para a criação de uma nova realidade, ou a psicose erótica com seu rosário de violência recíproca, ou o abandono.

 

Enclausurado, longe luz

 

- Mas olhe em baixo das portas a escorrer...

-Para os esgotos! Para os esgotos!

- A escorrer...

- Um fio de lágrimas sem nome!...9

 

Qualquer pessoa adulta razoavelmente experiente conhece a dor de ter sido abandonada: é a dor de sentir-se como um detrito, algo subtraído de todo o valor. Lágrimas anônimas, que ninguém recolhe, se equivalem a fezes e urina. Simbolicamente, abandonar é matar os bons conteúdos do ego, uma comunicação de que desapareceu tudo o que o outro tem de “amável”.

 

Se Fernando tivesse morrido em sua guerra, Angélica seria uma saudável viúva, com a certeza de continuar sendo amada por toda a eternidade. Mas, diferentemente da morte real, que é inegociável, a morte simbólica tem outro agravante: teoricamente, ela é reversível. A esperança faz com que esse poço não tenha fundo. Angélica está sempre em queda, está sendo abandonada a cada dia de sua longa espera. A cada não-retorno, ela ouve a recusa, o desamor se apropria do espaço mental, a negação do próprio valor se reafirma. No espaço real que vai do portão da casa ao horizonte vazio, sustenta-se a fome de Angélica, sua doença, sua tísica. Esse processo pode ser interminável por conta da resistência do abandonado em reconhecer a perda. Como único guardião do amor compartilhado, o abandonado tem de garantir pelo maior tempo possível uma vida que se sustenta, como nas comatoses, graças ao uso de “aparelhos”, artifícios que a esperança fabrica para não ter de se defrontar com o inexorável da morte.

 

Frente ao abandono, a mulher confronta-se com seu destino: ou morrer, ou trair. Com razão Fernando duvida da fidelidade da noiva. Se ela é capaz de trair, quer dizer, de questionar o desvalor que o abandono lhe impõe, é ele quem fica desamparado. Nesse momento de dúvida, Fernando chega a devolver o poncho que só pode ser usado na vigência do contrato da espera melancólica de Angélica.

 

Nelson Rodrigues tem razão: toda a nudez será efetivamente castigada. Ninguém se entrega ao outro impunemente. Se ele, para proteger sua masculinidade, só pode significar-se como ausência, ela, esvanecendo-se, faz retornar ao abandonador a maldição da carência. Querendo subtrair-se à castração, o macho sucumbe a um castigo maior que é o de sufocar sob o poder do manto que o protege.

 

1.    LISPECTOR, Clarice A Paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro Francisco Alves 1990. p. 25

2.    Todas as citações são da novela O Poncho, de Charles Kiefer.

3.    T.S.Eliot, Emily Dickinson, René Depestre Seleção São Paulo: Editora Hucitec, 1992. p 43

4.    FERENCZI, Sandor Thalassa. Rio de Janeiro: Biblioteca Universal Popular, 1967. p. 105.

5.     "FREUD, Sigmund Introducción al Narcisismo In Obras " Completas Madrid: Biblioteca Nueva p. 2024.

6.    MEIRELES, Cecília. Solombra, in Obras Completas, v. IV. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 1976. p. 116.

7.    FREUD, Sigmund. Introducción al Narcisismo. In Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva p. 2026. Segundo Paulo.

8.    Sérgio Rosa Guedes, a infância humana é tão longa, que não acaba nunca.

9.    ANDRADE, Mário de. Colloque Sentimental. In: Poesias Completas. São Paulo, Martins Editora. 1974. p. 50.

 



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