domingo, 5 de dezembro de 2010

UM GRANDE ESCRITOR (Vicentônio Regis do Nascimento Silva)

Para ser escritor – Editora Leya, 160 p. Jornal Oeste Notícias, Caderno Tem!, 03 dez. 2010. Presidente Prudente, SP.


Legalidade e legitimidade são dois substantivos caros. Legalidade relaciona-se estritamente a quem possui títulos, certificados, diplomas ou documentos que atestam possível capacidade. Legitimidade remete à habilidade profissional de desempenhar satisfatoriamente uma atividade. Quem tem formação legalmente regulamentada nem sempre desempenha satisfatoriamente uma atividade faltando-lhe, dessa maneira, legitimidade. Da mesma forma, nem todos os que se aventuram em uma atividade têm autorização legal, burocrática ou estatal. Charles Kiefer – ao lado de grandes nomes contemporâneos como Luiz Antônio de Assis Brasil, Deonísio da Silva, Cristóvão Tezza ou Milton Hatoum – reúne legalidade e legitimidade: não apenas analisa, estuda ou critica, mas principalmente produz Literatura.

Autor de dezenas de obras – entre elas romances, contos, crônicas e ensaios – e reconhecido tanto pelos leitores (com expressiva vendagem) quanto pela crítica (considerando o número de prêmios e os estudos universitários sobre sua obra), Kiefer utiliza sua experiência de orientador de oficinas literárias no Rio Grande do Sul em “Para ser um escritor” que, em boa parte, constitui, para quem acompanha regularmente seu blog (www.charleskiefer.blogspot.com), seleção de textos relacionada ao ofício da escrita.

Outros escritores renomados já tinham registrado suas impressões pedagógicas ou pessoais sobre a construção ficcional. Entre os brasileiros, Raimundo Carrero, Nelson de Oliveira e o grande Autran Dourado e, no exterior, Stephen Koch, Marguerite Duras, Schopenhauer, Marquês de Sade, Milan Kundera, David Lodge, Ernesto Sábato e Roland Barthes. Kiefer exterioriza suas concepções, levando o leitor a tomar iniciativas no papel social que evidencia o intelectual diante dos empecilhos e das confusões do cotidiano. O escritor tem a palavra para se manifestar, marcar sua posição e se preparar ao combate. Dessa maneira, o anonimato não caberia aos intelectuais no debate das idéias. Covardia? A Literatura não merece covardes, garante Kiefer em “Eu assino o que escrevo” (p. 112).

O livro não agrupa somente concepções de coragem, mas incentiva o estudo sistemático – não necessariamente metódico – e a valorização dos antecessores. Estudar profundamente é, portanto, compromisso indispensável: “A arte não evolui. Por isso, conhecer profundamente a tradição literária é absolutamente necessário a qualquer escritor, sob pena de se passar pelo ridículo de se reinventar a roda”. (p.46)

O estudo de autores, de obras, de análises que agreguem valores aos diálogos intertextuais e enriqueçam o contexto são passos essenciais para assimilar com maturidade as diretrizes dispostas, como se espera de um livro cujo título insinua o caminho “Para ser escritor”, em vários capítulos. Umas das primeiras dicas alerta sobre a má qualidade de obras, destacando problemas com personagens mal construídas ou estereotipadas, ação lenta e desconexa, diálogos superficiais e inúteis, situações inverossímeis, descrições desnecessárias ou que não interessam à narração, textos inexpressivos ou ausência de sutileza. A cada um dos tópicos, Kiefer discorre sobre pontos essenciais que, na prática, auxiliam o bom leitor a analisar com mais capacidade o que descodifica e garante ao aspirante de escritor um roteiro bem estruturado na concepção de suas criações (p. 34-37).

A busca da perfeição também se manifesta no levíssimo “Quatro mundos da criação” em que se estabelece a gradação pragmática e didática no ensaio, na tentativa, no esboço arquitetônico da obra de arte. O discernimento e a conceituação de gêneros narrativos são expostos, discutidos e singularizados como no caso de “É conto ou crônica?” em que, nas primeiras linhas, discorda do poeta Mário de Andrade para quem a definição de conto ou crônica se daria pela escolha em enquadrá-la – sem mais questões estéticas – em um ou outro gênero.

“Para ser escritor” é, no mínimo, um manual indispensável para os que desejam se tornar autores, narradores, ensaístas, dramaturgos, poetas: didático, pragmático e fluido sem, no entanto perder sua capacidade de teorização e de espanto aristotélico.

4 comentários:

  1. Que bela crítica, Kiefer! Teu livro merece, é mesmo indispensável.
    Parabéns!
    Beijo.
    Monique

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  2. Luiz Alberto Rossi7 de dezembro de 2010 04:20

    Caro Charles: Acompanho essas manifestações elogiosas, merecidas, embora o professor não tenha se dado conta de que não se trata de um "manual".
    Comentários como esses comprovam a afirmação de MACHADO, quanto a existência de duas vidas paralelas: A do escritor que possui a virtude e o conhecimento e a dos leitores que percebem isso. Abraços Luiz Alberto Rossi

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  3. Ainda não terminei de ler o livro, mas já tenho muitas questões apontadas, entre elas, a relação conto/crônica: "O conto reinstaura o mito e a crônica debruça-se sobre a história", p71. Penso que é no processo de reinstauração do mito que aparecem as diferenças fundamentais entre os bons e os maus escritores. Clarice Lispector e Machado de Assis, por exemplo, faziam essa abordagem de modo enviesado, legando-nos a melhor narrativa brasileira deste gênero.
    Parabéns pelas instigantes reflexões!
    Abraço da aluna e leitora.
    Cátia Simon

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  4. achei este livro maravilhoso e indispensável para quem quer ser escritor e até para quem não tem pretensões de sê-lo{ assim como eu, por exemplo} mas que querem e gostam de aprender sempre e encantam-se com a literatura, principalmente, com a maneira com que ela é feita...bjsss querido professor

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